Rota das Elevações Sagradas no Alto Douro Vinhateiro

Rota | Património
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    A região demarcada do Alto Douro Vinhateiro engloba mais de 26 mil hectares classificados pela Unesco, desde 2001, como património da humanidade, na categoria de paisagem cultural, evolutiva e viva. Trata-se de uma das mais importantes regiões do mundo, pelas suas características climáticas, morfológicas e geológicas, que lhe conferem uma paisagem impar, caracterizada por encostas íngremes e agrestes, e solos pobres e acidentados, adaptados continuamente pela acção do homem às necessidades agrícolas. Destaca-se aqui a persistente cultura da vinha, que desde os séculos terceiro e quarto d.C., vêm moldando a paisagem como o testemunham os vários vestígios de lagares e artefactos ligados à produção do vinho, espalhados um pouco por toda a região duriense.

    É uma região com um relevo fortemente acidentado e modelado, com grandes diferenciações altimétricas, sendo possível dos pontos mais elevados, observar cenários paisagísticos únicos, tendo muitos desses pontos, sido escolhidos como locais de culto desde tempos remotos e mais tarde adaptados, pela sua magnificência paisagística, a miradouros.

    São estes locais elevados e sagrados, o objeto da presente rota, que abarca elevações dos municípios de Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Alijó, Torre de Moncorvo, Armamar, São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa, distribuídos pelas sub-regiões Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.

    Pretende-se aliar a beleza da paisagem que estes locais dominantes oferecem, e que Alexandre Herculano comparou à obra de Miguel Ângelo, dizendo que a natureza aqui empregou um papel semelhante ao do artista, “foi robusta, solene e profunda”, ao misticismo, esperança e simbolismo que adquiriram como locais de culto.

    A paisagem alto-duriense é considerada ímpar pela sua forte identidade paisagística, cultural, social e económica, onde predomina com maior intensidade a cultura da vinha, harmonizada de diferentes formas e técnicas de plantio, acompanhando as necessidades e a evolução tecnológica, denunciando experiências e saberes que gerações e gerações acumularam. Em algumas zonas, embora em menor quantidade, também surgem plantações de oliveiras, amendoeiras, pomares e matos mediterrânicos, ocupando estes últimos, uma grande parte dos mortórios, vinhas devastadas pela filoxera.

    Trata-se de uma paisagem de grandes contrastes, caracterizada por montanhas e planaltos, constituídos por diferentes materiais rochosos, encontrando-se com maior predominância os xistos que favorecem o aparecimento das formas irregulares e vertentes bastante declivosas, e os granitos que conferem ao relevo formas menos movimentadas, aumentando essa diferenciação altimétrica à medida que nos aproximamos do seu limite ocidental. Estas formas irregulares do relevo conduzem as águas do Rio Douro e seus afluentes ora por verdadeiros cachões ladeados por vertentes íngremes, ora em leitos suaves, acentuando o efeito cénico da paisagem.

    São vários os pontos, ao longo da região, que permitem contemplar com maior abrangência estes cenários únicos e deslumbrantes, onde a paisagem natural e a humanizada se aliam numa perfeita harmonia, criando uma paisagem de arquitetura “barroca”, com composições de mosaicos tingidos de várias tonalidades ao longo do ano.

    Terão estes pontos, pela sua posição elevada, motivado a sua escolha como locais de culto, em alguns casos desde a pré-história, intensificando-se na idade média e mais ainda durante a época moderna, originando uma grande movimentação de devotos que cheios de fé se deslocavam de várias regiões, estabelecendo uma relação mais próxima com o divino, apoiados em promessas e pedidos para alcançar uma graça ou obter um milagre através do santo de devoção.

    Foram nestes locais erigidos pequenos templos, estabelecendo os crentes, uma maior proximidade com o céu e as suas divindades, na expectativa de assegurem uma maior proteção. Trata-se de um conjunto de capelas, na sua maioria de desenho despojado e cariz vernacular, isoladas e distantes das povoações, construídas em xisto ou granito e custeadas com as esmolas dos romeiros.

    Do conjunto destacam-se, pela sua dimensão, os Santuários da Senhora da Piedade, em Alijó e São Salvador do Mundo em São João da Pesqueira, e, pela antiguidade, a Capela de Nossa Senhora do Viso, em Vila Nova de Foz Côa, associada ao Castelo de Numão, e a Capela de São Domingos, em Armamar, destacando-se ainda esta última pela preservação da traça original, reunindo relativamente bem conservados elementos artísticos do período românico, gótico, manuelino e maneirista. Os restantes templos, construídos entre os séculos dezasseis e vinte apresentam na sua maioria espaço único.

    Desconhecem-se as datas exatas de construção e veneração de uma grande parte dos espaços. Mas sabe-se, no entanto, que no século dezoito originavam grandes movimentações de romeiros vindos de várias regiões do país, e que no século dezanove, devido à diminuição das romarias, algumas das construções se encontravam bastante degradas tendo a sua reconstrução adulterado as estruturas primitivas.

    Com o passar dos tempos, a prática religiosa das romarias foi decrescendo e assumindo um caráter popular e festivo. Atualmente os templos encontram-se encerrados, com prática de culto apenas uma vez por ano, no dia do orago, a que se segue a festa popular com almoço convívio e baile, estendendo-se nalguns casos por mais de um dia.

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